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O dia começou com um gesto simples, mas com o poder de mudar vidas. Na EPM-CELP, alunos, professores e funcionários juntaram-se, esta quinta-feira, à campanha de doação de sangue promovida no âmbito da Feira da Saúde 2026, numa resposta solidária ao défice de reservas de sangue registado no Banco de Sangue do Hospital central de Maputo (HCM), parceiro da iniciativa.

No Dia Mundial da Língua Portuguesa, em Maputo, a língua fez-se ouvir antes de ser celebrada. Entre conversas soltas e sotaques cruzados, a cerimónia na Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa (EPM-CELP) revelou o português como prática viva – múltipla, em movimento  – antes de o fixar em discurso, reflexão e literatura.

É 5 de maio e, no pátio, antes do início da cerimónia, a língua refulge em diferentes matizes, português europeu, são-tomense e expressões moçambicanas, ecoam, fundem-se e aproximam. Estudantes conversam em voz baixa, funcionários organizam o espaço. A língua circula sem cerimónia, antes de subir ao palco. E é nesse intervalo que se torna visível aquilo que a data procura assinalar: uma língua em uso, que não se fixa, mas cresce e evolui em si mesma.

A cerimónia reúne representantes diplomáticos da CPLP, reitores, membros do Governo e convidados de vários sectores. Mais do que um encontro protocolar, trata-se de um gesto de aproximação entre geografias e experiências distintas, unidas por uma língua que se desdobra em variantes, tons e usos diversos.

A sessão integra as celebrações do Dia Mundial da Língua Portuguesa, instituído pela UNESCO em 2019, e celebra uma língua falada por mais de 260 milhões de pessoas. Em Maputo, essa dimensão global cruza-se com a prática quotidiana: o português varia no ritmo, na pronúncia e no vocabulário. Um idioma comum que se realiza de formas diferentes.

O evento teve início com a entoação dos hinos de Moçambique e de Portugal, interpretados pelos alunos do 1.º Ciclo, seguindo-se a leitura de excertos de diversos livros publicados pela EPM-CELP, por alunos do ensino secundário.

“Uma língua que nos une”

No plano institucional, a cerimónia centrou-se nas intervenções de representantes diplomáticos, académicos e governamentais, entre os quais a presidente da Comissão Administrativa Provisória da Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa, Luísa Antunes; a inspetora-geral da Inspeção-Geral da Educação e Ciência de Portugal, Ariana Cosme; o embaixador de Portugal em Maputo, Jorge Monteiro; e a ministra da Educação e Cultura de Moçambique, Samaria dos Anjos Tovela.

lingua portuguesa luisa antunesPara Luísa Antunes, o Dia Mundial da Língua Portuguesa surge não só como efeméride, mas como pretexto para pensar a escala e a natureza de uma língua que atravessa continentes. Falada por milhões, mas longe de ser homogénea, a língua portuguesa é apresentada como espaço de encontro entre culturas e percursos históricos distintos.

No contexto da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, essa dimensão torna-se mais evidente. O português afirma-se como elo comum entre realidades diversas, sem anular as especificidades de cada território. Em Moçambique, em particular, o seu papel como língua oficial e de ensino convive com uma pluralidade de línguas nacionais, compondo um cenário linguístico marcado pela sobreposição e pelo contacto.

 

E é nesse ponto, segundo disse, que a Escola Portuguesa de Moçambique se integra. Mais do que espaço de ensino e transmissão formal, a instituição surge como lugar de circulação da língua, onde diferentes referências culturais se encontram e se confrontam, e onde o português se adapta ao uso concreto de quem o fala.

A diversidade – fonética, lexical, cultural – não surge como fratura, mas como condição de existência da própria língua. As variantes faladas em Portugal, Brasil, Angola ou Moçambique não a fragmentam; expõem-na como um sistema em transformação contínua. E no limite, a ideia que fica é de que este “português” se mantém como língua comum não por ser uniforme, mas precisamente por acomodar diferenças.

“É a língua que nos permite encontrarmo-nos a nós próprios”

Ariana Cosme, na sua intervenção, propôs um olhar sobre a língua portuguesa menos institucional e mais fundacional, ou seja, nãolingua portuguesa cosme apenas como instrumento de comunicação, mas como condição para a construção do do Homem e da sociedade. Na intervenção subordinada ao tema “O Mar que une os Povos tendo a Língua Portuguesa como um Bem Comum”, a inspetora-geral destacou o papel da linguagem no processo de formação individual e coletiva. “A língua ajuda-nos a encontrar os outros, mas também a encontrar-nos a nós próprios”.

Partindo dessa ideia, Cosme sublinhou que o ser humano não se constrói isoladamente, mas em relação. “Nós não nascemos pessoas; tornamo-nos pessoas na relação com os outros”, disse, apontando a linguagem como um dos principais mediadores desse processo. A frase é dita lentamente, seguida de uma breve pausa no auditório. Ariana Cosme fala da linguagem não apenas como ferramenta de comunicação, mas como condição de construção do humano.

A passagem da oralidade à escrita surgiu, neste contexto, como momento determinante. É através da língua escrita, referiu, que o conhecimento – técnico, científico e cultural – se transmite entre gerações, consolidando-se como memória coletiva. A intervenção recupera ainda a ideia de que o diálogo é condição essencial da existência social. “O ser humano faz-se no diálogo com os outros”, assegurou, acrescentando que a língua permite precisamente essa quebra do isolamento, abrindo espaço ao encontro e à ação.

A leitura e a literatura ocupam, neste quadro, um lugar central. Citando autores e experiências de leitura, Ariana Cosme defendeu que o contacto com os textos “nos torna mais críticos, mais inconformados”, contribuindo para a formação de sujeitos capazes de questionar e escolher os seus próprios caminhos.

A língua não serve apenas para descrever o mundo, mas para o pensar. “Nós pensamos pelas palavras”, afirma, sublinhando que é através delas que se estruturam ideias, emoções e formas de compreensão da realidade.

Essa relação entre linguagem e pensamento estende-se também à dimensão individual. A língua permite não só compreender o mundo exterior, mas também aceder à experiência interior. “É a língua que nos permite encontrarmo-nos a nós próprios”.

Num registo mais próximo da criação, a inspetora-geral destacou ainda o carácter dinâmico das línguas. Longe de serem sistemas fechados, estão em permanente transformação. Cada língua inventa palavras novas, afirma, apontando para a diversidade de usos do português em diferentes geografias – de Moçambique a Timor, passando por Portugal e outros contextos da lusofonia.

lingua portuguesa embaixadorPara o embaixador de Portugal em Maputo, Jorge Monteiro, a celebração do Dia Mundial da Língua Portuguesa inscreve-se numa trajetória que antecede o reconhecimento pela UNESCO, lembrando que a data já havia sido instituída, em 2009, pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

No discurso, destacou o crescimento e a projeção internacional do português, sublinhando o seu estatuto de língua global. “É hoje uma língua de comunicação, de produção científica e cultural para mais de 260 milhões de pessoas, espalhadas pelos cinco continentes”.

O diplomata apontou ainda para a presença do português em sistemas de ensino e organizações internacionais, bem como para a sua expansão em contextos onde a procura tem vindo a crescer, como os Estados Unidos, o Senegal ou a China. “Estamos perante uma língua de futuro”, disse, associando-a não apenas à circulação cultural, mas também ao desenvolvimento económico.

Para ele, o português funciona como “instrumento facilitador de investimento, de comércio e de parcerias estratégicas”, sobretudo em geografias com elevado potencial de crescimento.

Sem perder a dimensão simbólica, o embaixador sublinhou também o papel da língua enquanto espaço de criação e identidade. Da literatura à música, passando pela produção académica, “é um veículo de projeção internacional das culturas dos países lusófonos”.

No contexto da Escola Portuguesa de Moçambique, destacou o ambiente multicultural como expressão concreta dessa diversidade. A convivência de alunos de várias nacionalidades traduz-se num espaço onde “a língua portuguesa se afirma como ponto de encontro entre culturas, instrumento de conhecimento e veículo de cidadania”, disse, concluindo que “cuidar da língua portuguesa é cuidar de uma herança comum, mas é sobretudo construir o vosso futuro”.

A língua como unidade e pertença

Na intervenção da ministra da Educação e Cultura de Moçambique, Samaria dos Anjos Tovela, a língua portuguesa surge ligada à ideia de unidade nacional e de memória coletiva. Partindo da experiência de uma geraçãolingua portuguesa Samaria formada no período pós-independência, a ministra recordou que o português foi assumido como língua de instrução e elemento agregador num país marcado pela diversidade linguística. “Era uma questão de unidade nacional”, afirmou, sublinhando o lugar particular que a língua ocupa no contexto moçambicano.

Sem ignorar a coexistência com as línguas nacionais, Samaria Tovela destacou a necessidade de preservar esse património plural, reconhecendo que muitas das novas gerações já não dominam os idiomas locais. A relação entre o português e as restantes línguas faladas no país aparece, assim, menos como oposição do que como convivência e enriquecimento mútuo.

A ministra defendeu ainda um maior contacto dos estudantes com a realidade moçambicana, incluindo os que frequentam escolas de currículo estrangeiro. Nesse sentido, apontou a intenção de reforçar a presença de conteúdos ligados à História, Geografia e cultura do país, de modo a aproximar os alunos do contexto em que vivem. “Temos muitos alunos que estudam em Moçambique, mas que não conhecem o nosso país”, observou.

A literatura infantil e a promoção da leitura ocuparam igualmente parte central da intervenção. Referindo-se ao lançamento de “O Peixe Grande”, Samaria Tovela destacou a importância de estimular hábitos de leitura desde os primeiros anos de escolaridade, associando esse processo ao programa de aprendizagem na idade certa, centrado na leitura, escrita e aritmética. Nesse contexto, admitiu a possibilidade de a obra integrar futuramente circuitos complementares de leitura nas escolas primárias.

E, mais uma vez, o discurso regressa à ideia que atravessa toda a efeméride: a língua portuguesa como espaço comum de conhecimento, formação e cidadania. Mais do que instrumento administrativo ou académico, surge como língua de acesso ao saber e de construção coletiva de pertença.

lingua portuguesa geral meio

O livro e o centro da palavra

O momento dedicado à literatura deslocou o eixo da cerimónia. O programa, até então estruturado em intervenções institucionais, abriu espaço a uma apresentação que rompeu com o registo protocolar e introduziu uma dimensão mais narrativa e interpretativa do encontro. O lançamento de “O Peixe Grande”, de Leo Cote, estava inicialmente previsto para ser apresentado pela professora e investigadora Sara Jona, contudo, dada a sua indisponibilidade de última hora, a sua intervenção foi lida pela professora Olga Pires, que assumiu a apresentação em sua substituição, numa mesa que contou ainda com a presença do ilustrador, Luís Cardoso.

Para Sara Jona, na leitura feita por Olga Pires, `O Peixe Grande´ “é um livro que nos convida a manter os nossos sentidos despertos. Não fala, efetivamente, de um peixe, mas este é a metáfora de um mamífero, cuja espécie nos é dada a conhecer quase no final da narrativa; ou seja, temos de ler o livro para saber que tipo de animal se trata, já que esta é uma história de suspense”, refere.

A investigadora sublinhou que “é assim que se escrevem os bons livros de ficção infantojuvenil, nos quais se utiliza a criatividade para fazer sonhar ou estimular a imaginação. O uso do adjetivo ‘grande’ é uma técnica que ativa a curiosidade, levando o leitor ao desejo de folhear apressadamente o livro para ver o tamanho do peixe”, acrescentou.

Na narrativa, explicou, o peixe tem, para o menino que conta esta história, o tamanho de um boi, portanto, ‘um peixe do tamanho de um boi’. A leitura destaca ainda a forma como o texto descreve o mar: “Aqui o mar respira, normalmente, num ritmo constante e vagaroso. Às vezes, só às vezes, ouve-se um rugido de mar alto ou de tormenta. Por isso, ninguém saberia explicar por que razão, naquele momento, o mar chegava à praia com um respirar asmático, cansado e triste”.

O livro é descrito como tendo uma estrutura próxima do policial: “Foi escrito como se de um verdadeiro policial se tratasse”, disse, para quem as ilustrações de Samuel Djive e Luís Cardoso são complementares da narrativa, “acompanhando a história, onde no início se ilustra o ‘peixe grande’ e no final se faz a revelação tão desejada”.

No plano interpretativo, a intervenção associou a obra à ideia de questionamento: “Com esta história, Leo Cote vem-nos lembrar a importância de questionar sempre que nos encontramos diante do desconhecido, do diferente, ou do que gera diferentes pontos de vista”. A intervenção encerrou com uma nota sobre língua e identidade, destacando a presença de vocábulos de uso moçambicano, como “matabicho”, e a sua circulação no interior do português.

É a partir dessa leitura, que coloca o livro no território da metáfora, do suspense e da formação do olhar, que a palavra passa para quem o fez. E aí, o registo muda: sai-se da interpretação para o processo, do texto lido para o texto vivido.

lingua portuguesa luis Cardoso

O ilustrador, Luís Cardoso, começou por situar o livro no seu percurso. Ao longo de mais de uma década de colaboração com a Escola Portuguesa de Moçambique, o desenho tem sido o seu lugar de trabalho. Mas aqui, explicou, o desafio foi outro. As imagens não nasceram para o livro: partiram de obras pré-existentes de Samuel Djive, que serviram de base a um trabalho de diálogo visual. “Usei as obras como suporte para ir fazendo apontamentos ilustrativos ao longo do texto”, disse, descrevendo uma relação que não é de subordinação à narrativa, mas de convivência com ela.

Luís Cardoso fala do desenho como quem regressa a um gesto antigo. Enquanto descreve o processo de ilustração, faz movimentos curtos com as mãos, como se ainda desenhasse sobre a mesa.  Há, nesse processo, uma escolha que é também uma posição: o regresso ao traço. Num contexto dominado pelo digital, Luís Cardoso sublinhou a importância do desenho como gesto primeiro.

“O recurso principal foi o traço. E só depois a fotografia, a digitalização”, afirmou. Mais do que técnica, trata-se de preservar uma forma de ver, uma linha que acompanha o texto sem o fixar, que sugere mais do que explica, e que mantém aberta a mesma ambiguidade que Sara Jona identificava na narrativa.

“A minha primeira língua é o português”

Se no desenho o processo parte da contenção e da escuta do texto, na escrita de Leo Cote o percurso faz-se por aproximações e desvios. O autor começou por assumir uma dificuldade: falar deste livro não é simples, talvez porque a sua origem não está num projeto linear, mas num confronto com os próprios limites da linguagem.

Leo Cote fala do livro com alguma hesitação, como se ainda procurasse a melhor forma de explicar a sua origem. Quando finalmente define o ponto de partida, recua à poesia. “Fundamentalmente sou um poeta”, disse, explicando que a passagem para a prosa, e, em particular, para a escrita infantojuvenil, nasce da necessidade de dizer de forma mais acessível aquilo que na poesia se torna “mais hermético”.

Essa passagem não implica simplificação, mas antes deslocamento. A prosa surgiu como espaço onde é possível “dizer muitolingua portuguesa Leo cote com pouco”, encontrar uma forma de comunicação que preserve a densidade sem perder o leitor. E esse leitor, no caso, são crianças – um território que o autor não romantiza. Pelo contrário, descreve-o como um espaço exigente, onde cada palavra precisa de encontrar o seu caminho. “A mesma coisa que digo a uma criança não serve para outra”, observou, sublinhando a necessidade de inventar estratégias diferentes para chegar ao mesmo sentido.

A escrita aparece, assim, como um exercício de mediação: entre referências literárias – que reconhece como “muito dramáticas, muito sérias”, como as de Fernando Pessoa – e a realidade concreta que o interpela diariamente; entre a experiência pessoal, incluindo a relação com o filho, e a construção de um imaginário capaz de acolher outros. O texto nasceu dessa montagem, de “retalhos” de leituras, de vivências, de perguntas sem resposta imediata.

Há ainda uma dimensão que atravessa todo o seu depoimento: a relação com a língua. No seu caso, o português não é apenas ferramenta, mas origem. “A minha primeira língua é o português”, disse, situando-se numa posição particular dentro do contexto moçambicano. E é a partir daí que pensa também as limitações e possibilidades do uso linguístico, lembrando que falar uma língua não significa necessariamente conhecê-la em profundidade. A literatura, sugeriu, é precisamente um dos lugares onde esse conhecimento se expande, onde palavras aparentemente simples abrem para diferenças culturais, para outras formas de ver e organizar o mundo.

No fim, o livro deixa de ser apenas objeto para se tornar passagem. Entre texto e imagem, entre autor e leitor, entre experiências que não coincidem, mas que se podem encontrar. Como na metáfora inicial, não é tanto sobre um peixe, mas sobre aquilo que só se revela a quem aceita ler até ao fim.

A cerimónia terminou com uma visita guiada à exposição “Proteger o Azul, Salvar as Cores”, patente no átrio da Escola e criada no âmbito das celebrações do Dia Mundial da Água, propondo uma reflexão sobre a preservação dos ecossistemas marinhos, seguida de um Porto de Honra.

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A Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa (EPM-CELP) assinalou a Revolução dos Cravos com um conjunto de atividades educativas e culturais que envolveram alunos de diferentes níveis de ensino, ao longo do dia 24 de abril, em Maputo.