web valerio.romao1 23OUT19
O escritor português Valério Romão, que está em Moçambique a convite da EPM-CELP e do Camões – Centro Cultural Português em Maputo para dinamizar atividades no campo literário e da escrita, ensinou, na tarde de ontem, no Auditório Carlos Paredes, como o amor, a inclusão e o respeito pela condição humana contribuem para a felicidade de crianças autistas, em particular, e com necessidades especiais, no geral. Inicialmente designada palestra, o evento subordinado ao tema “Inclusão e Autismo – uma abordagem para pais, educadores e pares” terminou numa sessão de testemunho vivo, na qual a plateia expôs suas ansiedades e dificuldades enquanto pais, professores, colegas e irmãos de crianças autistas.

Autor da trilogia “Paternidades Falhadas” – três obras que incidem nas deceções e desafios no seio familiar –, Valério Romão começou a sua exposição de forma natural de um testemunho autobiográfico, narrando a história de um casal que, há 16 anos, convive com o filho autista que não fala. Os personagens desta narrativa, que incluiu esperanças, sonhos e muito gasto financeiro, são o próprio escritor, a sua ex-esposa e o filho de ambos Guilherme.

Para além de um retrato triste e prolongado no tempo sobre os desafios que os pais enfrentaram para solucionar os problemas da fala do Guilherme, na esfera das medicinas moderna e tradicional, aqui e ali com episódios de charlatanices e falsas esperanças, a sessão incidiu igualmente sobre decisões e práticas que salvaguardam a felicidade e o respeito na família onde existe uma criança autista. “Depois de várias tentativas, quando o Guilherme completou 12 anos, decidimos não incomodar os médicos e, consequentemente, aproveitarmos cada momento com ele. Decidimos, então, de deixar de ser enfermeiros, que só cuidavam dele, e passamos a ser pais”, revelou o escritor.

Na verdade, disse Valério Romão, a coragem em aceitar o filho, independentemente da sua condição, fez diminuir as expetativas em relação ao futuro dito normal de uma criança. Ou seja, ao princípio “queríamos que fosse escritor, futebolista ou advogado, mas quando nos apercebemos da sua condição, diminuímos os sonhos”, relatou o escritor, antevendo novo desafio que ocorrerá quando proximamente o Guilherme concluir o 12.º ano do ensino secundário, onde tudo parece terminar para os indivíduos autistas pois Portugal não dispõe de academias para o prosseguimento dos seus percursos académicos.

Um problema, várias realidades!
No decurso do seu testemunho enquanto pai de um adolescente autista, Valério Romão desafiou a plateia a partilhar as suas experiências sobre o tema em discussão. Em resposta, Nélia Macandzo, presidente da Associação Moçambicana de Autismo, lamentou, primeiro, o facto de a medicina convencional nada fazer para o rápido diagnóstico da situação, bem como o devido acompanhamento. “O pior é que existem técnicos de saúde que, mesmo nas consultas de rotina, não pegam nos nossos filhos”, desabafou.

O filho de Nélia Macandzo é autista, tem 13 anos, mas só foi diagnosticada a situação aos seis. A mãe, que agora conta com a EPM-CELP para o acompanhamento do seu filho, afirmou que se sente desamparada, mas os 220 pais membros da associação, com os quais busca soluções para os seus filhos, conseguem manter a esperança viva.

Outro testemunho que surpreendeu o auditório foi o de Lucas, irmão de um antigo aluno autista da nossa Escola: de uma criança supostamente sem futuro, hoje, com 25 anos, o jovem autista é um exemplo de esperança e superação, tendo conquistado uma medalha de prata para Moçambique numa competição internacional de artes marciais.

Entre alguns pesares e palavras de conforto, a conversa revelou-se inspiradora para quem convive com pessoas autistas. Todos querem que os seus filhos sejam felizes, tal como frisou Cláudia Sousa, professora de Inglês na EPM-CELP: “eles são diferentes, mas nunca inferiores”. Cristina Viana, professora de História, Catarina Domingues, terapeuta da fala, e alguns alunos falaram, igualmente, das suas vivências enquanto pais, técnicos de saúde e amigos de crianças com necessidades especiais.

Após a palestra “Inclusão e Autismo – uma abordagem para pais, educadores e pares”, Valério Romão orientou duas oficinas de escrita na nossa Escola: a primeira, ontem à noite, destinada a professores e, a segunda, na manhã de hoje, a alunos do 11.º ano do ensino secundário.

Comentários   

+1 #1 Rui 23-10-2019 20:14
Autismo não é doença
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