web premio.bci 28fev20
“O menino que odiava números”, livro do escritor moçambicano Celso Cossa e editado pela Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa (EPM-CELP), marcou, na noite de ontem, uma viragem nas distinções literárias e na valorização da literatura infantojuvenil em Moçambique, ao vencer a nona edição do prémio BCI de Literatura 2019, suplantando dezenas de obras de escritores nacionais consagrados. O anúncio foi feito pelo presidente do júri, Jorge de Oliveira, em cerimónia realizada no Auditório do BCI, em Maputo.

Dirigindo-se ao público, o vencedor do prémio – que amealhou 200 mil meticais – narrou episódios demonstrativos da desvalorização da literatura infantojuvenil, tanto no seio dos escritores como do público. “Recordo-me que, num destes dias na AEMO (Associação dos Escritores Moçambicanos), em conversa alguém me perguntou quando eu escreveria novo livro, a quem respondi que já tinha dois escritos. ‘Tu escreves para crianças. Tens de escrever para adultos’, respondeu-me, então, a pessoa”, contou Celso Cossa, sublinhando que o prémio “veio mesmo a calhar porque mostra que escrever para crianças é também escrever. E escrever para crianças é muito mais importante do que escrever para adultos, porque os adultos nunca deixam de ser crianças”.

web premiobci3A obra “O menino que odiava números”, ilustrado por Luís Cardoso, rompe um cenário de carência e desvalorização do género infantojuvenil a que o cenário literário nacional esteve sujeito durante anos. E Celso Cossa não tem dúvidas de que a premiação vem criar uma inclusão e valorização das artes e letras em detrimento de rótulos padronizados. “Não conheço nenhum país no mundo onde um livro infantojuvenil tenha ganho o espaço do melhor do ano. Então, agradeço a todos que me ajudaram, aos meus amigos, porque isto é um movimento”, declarou o autor.

Jorge de Oliveira, presidente do júri, afirmou na cerimónia do anúncio que o livro cria “um universo simbólico dos números que espelha uma escrita alicerçada na estética e inovação, o que resulta num efeito diferente da simbologia dominante na literatura moçambicana, desde os primórdios até ao tempo presente”, acrescentando que Celso Celestino Cossa “mostra que a sua aposta na literatura infantojuvenil veio para ficar, resultando daí que ´O menino que odiava números´ mostre um autor comprometido com a formação de leitores por meio da palavra literária”.

“Este prémio valoriza a literatura para crianças”
O livro “O menino que odiava números” foi publicado em outubro de 2019 sob a chancela da nossa Escola. De acordo com Teresa Noronha, responsável pelo setor de publicações da EPM-CELP, independentemente do valor do texto, o prémio significa uma valorização da literatura para crianças, num país onde a literacia é, e deve ser, uma aposta importante.

Relativamente ao espaço que a literatura infantojuvenil ocupa no contexto das letras em Moçambique, Teresa Noronha acredita que o autor deve escrever o que lhe vem da alma, “porque a escrita deve ser um processo que vem de dentro para fora e não uma coisa imposta de fora para dentro”. Particularizando, acrescentou que “se o Celso se sente confortável em escrever para crianças, acho que é uma aposta válida. Há grandes escritores que escrevem apenas para essa faixa etária. Não me parece que seja uma escolha menor. Não há um único modelo. O Celso é que deve encontrar na escrita o lugar onde se sente confortável”, sensibilizou Teresa Noronha.

Refira-se que, a partir de 2021, o prémio BCI de Literatura passa a ter mais duas distinções: uma menção honrosa e um prémio revelação.

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