web boccia1 mai19
A formação “Boccia, uma modalidade inclusiva”, organizada, no último sábado (11 de maio), pelos professores de Educação Física e Desporto Escolar da EPM-CELP Nuno Sousa e Ângela Leite discutiu questões relacionadas com a vida das pessoas portadoras de deficiência em Moçambique e perspetivou a inclusão da modalidade no desporto escolar. Dotou os participantes, também, de ferramentas teórico-práticas sobre o boccia.

Do painel de interventores no debate fizeram parte Maria Luísa Manguana, chefe do Departamento de Educação Especial do Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano (MINEDH) de Moçambique; Zeca Chaúque, presidente do Comité Paralímpico de Moçambique e Ana Paula Gomes, coordenadora do Núcleo de Educação Especial da EPM-CELP, os quais sublinharam que, de forma geral, o problema da inclusão pertence, sobretudo, à esfera social e não a qualquer outro domínio. Identificando alguma insensibilidade da sociedade para com as pessoas portadoras de deficiência, traduzida na figura de “coitados”, os painelistas foram unânimes em afirmar que a inclusão ainda é uma miragem na atualidade local.

Maria Luísa Manguana, que abriu o evento com o tema “Estratégia da Educação Inclusiva e o Desenvolvimento das Crianças com Deficiência – Futuras perspetivas da inclusão escolar em Moçambique”, lembrou que nos termos do Artigo 125 da Constituição da República de Moçambique, o Estado promove a criação de condições necessárias para aprendizagem, integração e desenvolvimento da Língua de Sinais em Moçambique. Segundo explicou, para cumprir este mandato constitucional, o país dispõe atualmente de oito escolas especiais e três centros de recursos de educação inclusiva para atender 74 921 alunos com Necessidades Educativas Especiais (NEE), dos quais 69 909 são do ensino primário e 5 002 do secundário.

A criação daquelas infraestruturas, de acordo com a dirigente do MINEDH, visa alcançar o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) que é “garantir a igualdade de acesso a todos os níveis de educação e formação profissional para os mais vulneráveis, incluindo as pessoas com deficiência...”, visando ainda “não deixar ninguém para trás”, pelo que “precisamos de uma estratégia de educação inclusiva”, alertou Maria Luísa Manguana. O plano, acrescentou, é transformar as pessoas e os seus valores para que possam ter atitudes mais positivas. E isso começa em casa. O desafio é começar a preparar a criança antes de chegar à escola para que adquira pré-requisitos para as aprendizagens académicas. Acresce a formação de professores, a transformação cultural da escola e a organização das respostas especializadas em rede.

Insatisfeito com a condição social das pessoas portadoras de deficiência na sua aceitação no mercado de trabalho e integração no desporto e outras atividades, Zeca Chaúque, presidente do Comité Paralímpico de Moçambique, revelou que para colmatar os problemas de inclusão são metas para o corrente ano a massificação desportiva, a advocacia, o desporto de rendimento, a pesquisa e a legalização de associações provinciais de desportos para a pessoa portadora de deficiência, entre outras ações. No mesmo rol, mas relativo às dificuldades vigentes, Zeca Chaúque afirmou que o maior problema reside na “falta de patrocínio ou colaboração do empresariado local para a execução das atividades dos grupos paralímpicos”.

Sobre o tema “Inclusão – realidade ou miragem?”, Ana Paula Gomes, por sua vez, contextualizou os presentes – professores de escolas moçambicanas – sobre o conceito da inclusão e das NEE. Citando Warnock Report, a professora da EPM-CELP referiu que a inclusão na escola começa quando os alunos com NEE têm acesso a um currículo flexível e alterável para que desenhe diferentes caminhos, de acordo com as características de cada aluno. Apoiando-se no pensamento de Klavina e Kudlácek, Ana Paula Gomes advogou que “de forma a caminharmos cada vez mais na inclusão efetiva é necessário que quando um aluno não é capaz ou não pode participar de forma segura e com sucesso na disciplina de Educação Física, usufrua de adaptações, modificações e alterações na atividade física de modo a que esta se torne apropriada de acordo com as necessidades educativas especiais que apresenta”.

A sessão teórica da formação terminou com apresentações da professora Ângela Leite sobre técnicas do boccia que envolveu os participantes na experiência e prática da modalidade, ajudando a perspetivar o sucesso da sua implementação nos jogos desportivos escolares e paralímpicos em Moçambique, como forma de disseminar a mensagem da inclusão.

Embora a Conferência Mundial sobre NEE, de 1994, realizada em Espanha, tenha definido conceitos básicos de inclusão que devem ser seguidos por todos os países, há ainda longo caminho a trilhar para que a inclusão seja uma realidade na sociedade.
web boccia2 mai19