Vénus, no seu movimento de translação à volta do Sol, aparecerá à frente do Sol, criando um mini-eclipse. A figura seguinte mostra as sucessivas posições de Vénus no seu trânsito à frente do Sol. O início do trânsito é na posição I, quando Vénus inicia a sobreposição com o Sol e o final do trânsito é quando Vénus atinge a posição IV, onde a sobreposição acaba.

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Infelizmente, para os habitantes de Maputo, este trânsito não será visível e, com sorte, se o céu estiver limpo, apenas poderemos ver o final do trânsito no nascer do Sol. A imagem seguinte mostra os locais do planeta onde este raro fenómeno poderá ser visível.

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Em Maputo os horários das posições I a IV serão os seguintes:

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Segundo a NASA, há um erro de aproximadamente 10 minutos nestas previsões. Portanto, em Maputo será visível o final do trânsito no nascer do Sol, a partir das 6:30 horas.

Mas vamos por partes, porque é raro o fenómeno?

É raro porque, para acontecer, a Terra, Vénus e Sol têm de estar no mesmo plano, de tal forma que Vénus oculta, muito parcialmente, o Sol. Na realidade, os planos destes planetas só estão alinhados, em média, 14 vezes por cada milénio. No restante tempo, os planos não coincidem, como mostra a figura seguinte.

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O trânsito de Vénus só pode ocorrer quando a Terra e Vénus estiverem ambos na linha dos nodos, que é a linha que interseta os dois planos das órbitas destes planetas. Uma vez que a Terra passa esta linha dos nodos nos dias 7 de Junho e 8 de Dezembro, o trânsito de Vénus ocorre sempre em datas perto destes dias. No milénio passado, o trânsito de Vénus ocorreu apenas nas seguintes datas:

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Até meio deste milénio as datas deste evento astronómico foram e serão:

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venus 7Algumas das nossas gerações são afortunadas porque poderão assistir a dois trânsitos de Vénus. Ao contrário deste de 2012, o passado trânsito, que ocorreu em 2004, foi perfeitamente visível em Moçambique e permitiu o registo de belas imagens, como a que se segue com as sucessivas posições de Vénus sobre o Sol.


Porque este evento suscitou uma das maiores expedições científicas à escala planetária?

Ao longo do tempo o Homem sempre tentou compreender, até ao mais ínfimo pormenor, o funcionamento do universo. Nesta senda de descobertas e de conhecimento, era essencial a precisão e o rigor das medidas. Já desde o século XVII que os astrónomos sabiam estimar as distâncias no nosso sistema solar graças aos trabalhos de vários homens, em particular Johannes Kepler. No entanto, essas distâncias, calculadas na época, não tinham a precisão e o rigor que a ciência moderna impõe, nomeadamente a distância da Terra ao Sol.

A observação do trânsito de Vénus de 1761 deu lugar, provavelmente, ao primeiro grande projeto científico internacional. Foram enviadas expedições para locais tão remotos quanto a ilha de Santa Helena (Atlântico), Terra Nova (Canadá), Vardø (Noruega, acima do Circulo Ártico), Ilha de Rodrigues (Índico), Tobolsk (Sibéria) e Ilhas Maurícias (Índico). Em 1769 uma vasta comunidade científica observou o trânsito de Vénus nos mais variados locais da Terra, desde os Estados Unidos da América à Rússia, com o objetivo de determinar as distâncias entre estes corpos celestes.

Curiosamente, uma expedição comandada pelo célebre explorador James Cook ao Taiti, ao serviço da Royal Society e do Royal Observatory of Greenwich, teve um ponto de contacto com Portugal, mais precisamente com a ilha da Madeira, onde a expedição esteve atracada entre 12 e 22 de setembro de 1768. Chegados ao Taiti, a expedição montou um forte para a observação do trânsito de Vénus, que foi chamado Forte Vénus.

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Medições foram feitas e os resultados publicados com um erro ainda considerável para a distância da Terra ao Sol: 153 milhões de quilómetros, com um erro de 0,6% que correspondia, mais ou menos, a um milhão de quilómetros.

No século XIX, nos anos de 1874 e de 1882, novas expedições e medições foram realizadas e determinou-se que a distância da Terra ao Sol era de 149,59 milhões de quilómetros, com um erro de 0,2%.

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Observatório temporário montado em 1874 nas ilhas Maurícias por uma expedição inglesa

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Observatório temporário montado na ilha de S. Paulo por uma expedição francesa

A forma como se determinava esta distância era pelo método da paralaxe e da triangulação, ainda hoje utilizados para determinar distâncias a estrelas ou galáxias longínquas.

O trânsito de Vénus foi, portanto, um evento muito importante para os astrónomos determinarem com, precisão, as distâncias do nosso sistema solar e, consequentemente, permitiu um conhecimento mais profundo das interações existentes entre o Sol e os vários planetas no sistema solar. Deste conhecimento à exploração espacial foi um saltinho. Como afirmou Neil Armstrong, quando alunou na Lua, em 20 de julho de 1969, "um pequeno passo para um homem, mas um enorme salto para a Humanidade."
A recente campanha mundial junto do público para estimar a Unidade Astronómica, a propósito do trânsito de Vénus de 2004, teve os seguintes resultados: 1510 grupos de trabalho mediram 4550 instantes de contacto. Como resultado, conseguiu-se medir a distância da Terra ao Sol com a fantástica precisão de 0.008%.
Hoje, com a tecnologia moderna e recorrendo a ondas de rádio, a distância da Terra ao Sol foi medida com uma precisão de 30 metros e o seu valor é de 149 597 870 quilómetros, distância designada como a Unidade Astronómica.

Assim, do ponto de vista científico, o trânsito de Vénus do próximo dia 6 de junho de 2012 não trará nenhum avanço significativo, mas permitirá a vários grupos de trabalho, em todo o mundo, testarem as suas observações com estudantes.

No entanto, a observação deste raro evento permitirá que cada cidadão do nosso planeta possa testemunhar estes sempre emotivos e espetaculares acontecimentos astronómicos, que nos transmitem um profundo sentido de humildade e de pertença ao universo.

Se estiver em Maputo, assista ao nascer do Sol no dia 6 de Junho de 2012, numa zona com um vasto horizonte, faça-se munir de proteções para os olhos e, com sorte, disfrute o final de um evento que só se repetirá daqui a 105 anos.

Francisco Máximo Carvalho, professor de Física do Departamento de Ciências Exatas e Experimentais.


Referências

www.wikipedia.org
http://eclipse.gsfc.nasa.gov
http://www.transitofvenus.org/
http://www.exploratorium.edu/venus
http://www.astronomy.ohio-state.edu/~pogge/Ast161/Unit4/venussun.html
http://solar-center.stanford.edu/
Augusto P, Sobrinho J.L. (2007), "O Transito de Vénus e a Unidade Astronómica", Universidade da Madeira.

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