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O dia de ontem, 26 de abril de 2018, começou agitado na Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa (EPM-CELP). Motivo: a celebração do 44.º aniversário da Revolução dos Cravos de 25 de abril de 1974. Logo pela manhã, alunos das turmas do nono ano e professores das respetivas turmas envolveram-se em "manifestações pacíficas” e, à tarde, o Auditório Carlos Paredes encheu-se para receber o historiador João Paulo Borges Coelho, que conduziu a palestra “Moçambique e o 25 de Abril”. O dia terminou com nova manifestação.

Alunos do nono ano saíram à “rua” para sensibilizarem para valores de Abril

web 25abril2 abr18“Paz, pão, saúde, educação!”, “O povo unido jamais será vencido!” e “Liberdade!” foram algumas palavras de ordem gritadas pelos alunos do nono ano do ensino básico da EPM-CELP, que protagonizaram uma “manifestação”, ontem, 26 de abril.

De altifalante em punho, os alunos percorreram os diferentes espaços interiores e exteriores da nossa Escola, tendo mobilizado alunos de outras salas que, curiosos com o movimento e o som, se juntaram à “manifestação”.
Pela primeira vez e no âmbito das comemorações do 25 de Abril de 1974 realizou-se uma “manifestação” pacífica na EPM-CELP. A ideia surgiu do grupo disciplinar de História que pretendeu animar uma atividade comemorativa de curta duração, que tivesse algum impacto na escola mas não prejudicasse o normal decorrer das aulas, numa altura em que a época de exames se aproxima.

No que se refere ao conceito de liberdade, as opiniões dos alunos são mais ou menos consensuais. Por exemplo, Melissa Simões, do “9.ºB”, falou acerca do significado do 25 de Abril de 1974, afirmando que “significa o fim da ditadura salazarista, com significado muito importante para os portugueses e para os moçambicanos” pelo que, conclui, “a data deveria ser comemorada para sempre.” Já Kyara Rocha, da mesma turma, destacou que “a liberdade é podermos pensar por nós próprios sem sermos julgados”, embora tenha manifestado consciência de que não existe liberdade plena no mundo. Por sua vez, Miguel Infante, do “9.ºD”, afirmou que liberdade é “ter capacidade para exprimir aquilo que queremos e não ter ninguém a impedir de fazê-lo”, reconhecendo que ela existe em “muitos poucos sítios do mundo”.

O impacto da manifestação, realizada nos intervalos maiores da manhã, pelos alunos dos “9.ºA” e “9.ºE”, e da tarde, pelos colegas do “9.ºB” e “9.ºD”, superou as expectativas das professoras envolvidas na ação. Cristina Viana, coordenadora do Departamento de Ciências Sociais e Humanas, revelou que a iniciativa envolvia, inicialmente, apenas duas turmas do nono ano, mas “acabou por arrastar, tal como no dia 25 de abril de 1974, uma multidão de alunos e professores que se juntaram à manifestação”.

web 25abril6 abr18“No percurso dos corredores, o barulho foi tal com o megafone e as palavras de ordem, que os alunos e os professores, curiosos e provocados pelo entusiasmo, juntaram-se à manifestação”, destacou Inês George, coordenadora do Departamento de Expressões que, para além da sua participação na “manif”, também mobilizou os alunos para a decoração do átrio central da nossa Escola e para a produção das faixas “revolucionárias”, nas quais se podia ler, nomeadamente, “25 DE ABRIL, SEMPRE” e “VIVA A LIBERDADE!”

A preparação da manifestação foi realizada por professoras e alunos. Alguns estudantes não conheciam nenhuma palavra de ordem nem o espírito da Revolução dos Cravos. Assim, os objetivos de mostrar aos alunos um pouco do que foi o espírito do 25 de Abril de 1974, de consciencializá-los acerca da política e da história de Portugal e de fazê-los viver e sentir uma manifestação foram cumpridos.

João Paulo Borges Coelho falou sobre “Moçambique e o 25 de Abril”

web 25abril3 abr18“Moçambique e o 25 de Abril” foi o tema da palestra, realizada ontem à tarde no Auditório Carlos Carlos Paredes, proferida pelo historiador João Paulo Borges Coelho, que falou do impacto do 25 de Abril de 1974 em Portugal, Moçambique e noutras antigas colónias portuguesas.

Destinada aos alunos do nono ano e 12.º das áreas de Economia e de Humanidades, a palestra começou com a declamação de um poema alusivo ao 25 de Abril pelo aluno Manuel Nhaca, do 10.º ano, acompanhado pelo som leve do piano. Ficou o verso: “um indivíduo verdadeiramente livre, vive em tranquilidade e paz”. Seguiu-se a apresentação do historiador palestrante pela professora Luísa Antunes, do grupo disciplinar de História, que leu uma pequena nota biográfica de João Paulo Borges Coelho, tendo destacado a sua licenciatura em História na Universidade Eduardo Mondlane e a sua dedicação à investigação das guerras coloniais.

João Paulo Borges Coelho começou por salientar alguns laços entre o 25 de Abril de 1974 e Moçambique, abordando a revolução portuguesa sob um prisma diferente do convencional, explicando que a mesma “extravasou as fronteiras físicas de Portugal, tendo transformado os destinos das ex-colónias”.

Os conceitos de “africanização da guerra”, com o recrutamento de africanos para participar na guerra do lado de portugueses, e da falta de recursos de Portugal para alimentar as guerras na Guiné, Angola e Moçambique foram assuntos que estiveram em cima da mesa durante cerca de meia hora. “Portugal era pressionado a descolonizar, como eram outros países da Europa”, frisou João Paulo Borges Coelho, destacando ainda que já “não havia mais recursos para alimentar a guerra” no início dos anos 70.

No fim da palestra houve tempo para intervenções e comentários do público. A professora Sónia Pereira, por exemplo, lembrou a “mudança que proporcionou a todos a possibilidade de aprender, sem discriminação”, a que o historiador juntou a ideia de que “a liberdade não é um dado adquirido, custa muito a conquistar e está em causa todos os dias”.

web 25abril4 abr18João Paulo Borges Coelho ainda partilhou com o público as memórias do dia da revolução portuguesa, revelando que o Cais do Sodré, em Lisboa, estava repleto de militares e que se lembrava “do clima de festa e da ausência de aulas”. Terminou a sua intervenção dizendo que “o mundo não tem direção. A direção é aquela que os povos criam. A liberdade é uma coisa que deveria merecer a atenção de todos, todos os dias”.

Para terminar a palestra, dois alunos – Bermica Valna e Manuel Guimarães (10.º A2) - encenaram um pequeno momento teatral alusivo aos direitos conquistados pelo 25 de Abril de 1974 e os meninos do ensino especial, com a ajuda de outros alunos, cantaram a música “Somos Livres”, de Ermelinda Duarte. Mas surpresas não ficaram por aqui pois “alunos revolucionários” irromperam no Auditório Carlos Paredes para uma manifestação com palavras de ordem como “Paz, pão, saúde, educação!”, “O povo unido jamais será vencido!” e “Liberdade!”.

Notas biográficas de João Paulo Borges Coelho

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