Semilibertos do domínio britânico após as brutais guerras anglo-bóeres e o pesado tributo exigido pelo império na Primeira Grande Guerra, eram apenas formalidades a prender a República ao controlo de Buckingham e Downing Street. Não obstante, impelidas que eram pela posição minoritária no país, os Bóeres, ameaçados pela maioria autóctone, forçaram a África do Sul a um regime de profunda segregação racial, modo original e inusitado de preservação do poder.

Por largos e longos anos, a culpa de todo o mal a Sul de Capricórnio sempre foi, fruto talvez da maquiavélica máxima do "alia-te somente aos fracos, para pilhares o mais que podes os poderoso", da odiosa política sul-africana. Os holofotes da comunidade internacional, quando se focavam a sul do Mediterrâneo, sempre o faziam nas vilanias, crueldades e injustificáveis ações do Apartheid, regime certamente ignominioso e desumano que, não obstante, se diferenciou no pós-segunda guerra mundial como única nação africana minimamente estável, sustentável e produtiva. Enquanto todo o continente afundava no nepotismo, na corrupção, na anarquia e na guerra, apenas aquele farol, encarrapitado no extremo sul do continente, mirando o caos, a balbúrdia e a inaptidão dos Nyereres, Amins, Sese Sekos e demais incapazes, continuava diariamente a ser bombardeado, fosse pelas Nações Unidas, pelos soviéticos, pelos vizinhos ou pela opinião pública internacional.

Felizmente, encontrou um santo, que nem só aos que a Igreja faz assim podemos chamar, que, ajudado pelo seu sempre necessário arcanjo, tornou uma nação governada pelo terror, pela desconfiança, pelo ódio e pela discriminação numa das maiores esperanças, tanto do continente como do Globo. Ainda há pouco se ouviam nas bocas dos economistas o acrónimo BRICS (do qual o Brasil está hoje de rastos, a Rússia amordaçada, a China ameaça estagnar e a África do Sul... Nem verbalizemos...). Há poucos anos se organizava o Mundial de Futebol nos seus estádios. Curtos vão os tempos em que parecia que aquela nação, movida pelo turismo, pelos diamantes, pelo ouro, pela agricultura e pela posição privilegiada como ponto de escoamento de bens, pessoas e serviços para a África Austral, se transformaria no potentado que a África sempre faltara.

Curtos vão e, contudo, tão longínquos e remotos nos parecem. Afetada pelas quebras constantes de energia, com uma economia que parcamente se sustenta acima da linha de água, com uma produtividade nula, disparidades gritantes, um desemprego jovem a ultrapassar os 50%, um aparelho de estado pesado e inútil, um regime político caduco e votado ao mais profundo caciquismo, a nação arco-íris enfrenta, neste ano de 2015, fruto das particularidades primeiro mundiais num cenário é envolvência demais subdesenvolvimento, maiores desafios que qualquer outro país do continente negro.

Hoje, não nos iludamos e, apesar do evidente desenvolvimento de diversos estados na região, a África do Sul, bem ou mal, permanece como um grande, o maior, senão quase exclusivo garante da estabilidade dos vizinhos. Rosnem furiosos os zimbabweanos, malawianos, moçambicanos ou tanzanianos com a soberba dos vizinhos, mas a verdade é apenas e só uma: todos aqueles, duma maneira ou doutra, precisam mais das boas graças de Joanesburgo do que de pão para a boca. Todos eles estão, como tal, agrilhoados, aferrolhados e cativos, bastante reduzidos e limitados nas medidas que podem tomar, receosos que têm de estar das represálias do colosso vizinho.

Enquanto isso, dorme a comunidade internacional sobre o assunto. A mesma opinião pública que responsabiliza a União Europeia pelo naufrágio de emigrantes a 20 quilómetros da costa da Líbia, que se escandaliza com os maus tratos que os espanhóis são acusados de praticar em Ceuta e no sul da Andaluzia, que se revolta com os acampamentos de ilegais que se instalam na Normandia, tentando saltar a Grã-Bretanha, é essa mesma opinião que se silencia agora, inebriada com alguma genialidade do Presidente Obama face a uma qualquer Cuba ou Irão do momento enquanto, em Durban e Joanesburgo multidões enfurecidas e desvairadas se lançam contra os estrangeiros, apunhalando-os, golpeando-os, regando-os a gasolina, linchando-os ou apedrejando-os, acusando-os de causarem a ruína do país, da economia e da juventude. Como os atenienses acusaram Sócrates de corromper a sua juventude, assim mesmo os sul-africanos apontam o desemprego, a inação e a falta de preparação e ímpeto da sua à injusta competição dos estrangeiros.

Não houve embargos, financiamento a guerrilhas, desestabilização e condenação aquando do regime Bôer? Não se isolou a África do Sul, ovelha tresmalhada que se atrasou apenas por 20 anos, pelos mesmos 20 anos que impediam uma negra americana de se sentar num autocarro para brancos, mas por isso mesmo foi ostracizada?
Não há o humanismo, a moral e a decência, o respeito pelos direitos humanos, pela liberdade de movimento, a defesa dos emigrantes que procuram escapar da pobreza, apenas para se depararem com a perseguição? Ninguém se levanta, fala ou esbraceja, ninguém ousa questionar porque figuras de proa, o rei dos Zulus, o filho do "presidente" Jacob Zuma e outros, personalidades com responsabilidades no seu meio e país, são as principais instigadoras de tal revolta?
Hipócritas.

Apenas e só isso. Falsos e mentirosos, parciais e interesseiros, tudo o mais poderiam ser, tudo se lhes seria perdoado, tudo lhes foi, aliás, permitido. Enquanto debatíamos os rendimentos a conferir aos ciganos, contávamos os tostões gastos a salvar náufragos, e vendíamos a alma ao Diabo, fervia brandamente o ódio xenófobo na África do Sul. Agora, quando já não o esperavam, rebentou. Resta saber apenas se alguém se oporá, se conseguirão colocar travão na deriva populista e medieval deste gigante, ou se, catanada a catanada, ataque a ataque, injúria a injúria, deixaremos cair este último recanto africano de paz e estabilidade e afundar o continente.

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