Observando sem minúcia, saltam-nos de facto à vista sinais perturbadores de intolerância religiosa, não só na península, mas em toda a Europa. Aí começará o desmentido: se tivessem sido assim tão disseminados, como explicar os ínfimos 1,8% de condenações à morte em Espanha, dos quais 1,7% se encerraram em queimas de bonecos de palha? Como se pode justificar que, entretanto, a Alemanha tivesse perdido um terço da população na Guerra dos 30 anos - um conflito de índole marcadamente religiosa - e tivesse recuperado rapidamente, para apenas alguns anos depois voltar ao concerto liderante europeu?

Continuasse a queima e certamente não chegaria sequer a um décimo duma purga do Generalíssimo Estaline. Até Torquemada, que não era, convenhamos, flor que se cheirasse, foi acusado de queimar protestantes... Quando o ultra ortodoxo clérigo castelhano morreu em 1498, 19 anos antes de Martinho Lutero afixar as suas teses. Tanto na Suíça como em França ou na Alemanha foram executadas mais pessoas na corrente de intolerância religiosa que grassou na Europa quinhentista e seiscentista do que na Península Ibérica.

Se em Espanha o massacre se assemelhou a um "bluff", um grelhado de domingo sem fogueiras ou espetos, em Portugal nem a uma sardinhada entre amigos chegou a procissão. Aliás, houve mais portugueses a morrer às mãos da Inquisição Espanhola do que a serem condenados no Palácio dos Estaus. Provavelmente, terão até morrido mais portugueses nos autos de fé americanos organizados pelos vice-reis Espanhóis do Novo Mundo do que em todo o Império Português. Em toda a Europa Meridional, não chegou a cem o número de bruxas queimadas na fogueira, bem como os protestantes e demais hereges executados sob a autoridade de Madrid.

Contudo, e mais do que uma vez, são considerados valores exorbitantes, na casa dos milhões de mortos, processos e condenações. (In)felizmente, executar uns milhões numa Espanha que, em 1650, não ultrapassava os sete milhões de habitantes parece, na melhor das hipóteses, um convite à desertificação e colapso total da nação. O que, apesar do declínio continuado, não se veio a verificar até ao golpe Republicano, nas vésperas do início da Guerra Civil Espanhola. Mesmo os autos de fé que tantos gostam de imaginar a iluminar os céus da Europa de Oeste a Este, do Sul ao Centro, dos centros das metrópoles aos acampamentos de camponeses, não passaram de atos isolados, geralmente aprovados e liderados por extremistas frustrados e com particular conivência das autoridades civis, que costumavam ver esta como um dos melhores atalhos de eliminar um opositor, um adversário ou inimigo. Principalmente numa Europa em que a fronteira entre o Rei e Deus era, na melhor das hipóteses, dúbia, e, na pior, inexistente, escrever ou falar contra as autoridades era falar contra quem as empossara das duas funções, cargos e regalias - Deus. Se não queremos ser demasiado violentos, se queremos parecer uns tiranos – soberanos - iluminados, entregamos os súbditos mais revoltosos à Igreja, em vez de gastarmos munições, magistrados e tempo a condenar e fuzilar qualquer voz dissonante.

Não obstante, houve sim, um grande obstáculo à modernização da Península, controlado pela Igreja, e, esse sim, geralmente subvalorizado. Enquanto o Tribunal do Santo Ofício costumava ser relativamente piedoso - passem as múltiplas interpretações a serem dadas à expressão - e compreensivo, o Índex foi, ele sim, o verdadeiro "ignitor" da ignorância e atraso peninsular, contribuindo para que umas paragens que, verdade seja dita, nunca foram particularmente abençoadas com muitos vultos da Ciência e do Saber. Se ainda houvesse esperanças de que o fantástico fluxo de riquezas do Ocidente e do Oriente, que todos os dias enchiam Sevilha e Lisboa com o exotismo de novos Mundos, pudesse atrair mentes pensantes, rapidamente se concluiu que o papel de Censura da Igreja Católica não permitiria que se espalhassem ideais contrários ao fechado paradigma católico, muito menos nos países dos mais Pios dos Reis da Cristandade. Não que tivesse perseguido particularmente as comunidades intelectuais Ibéricas; o Índex apenas não permitiu que estes se fixassem a sul dos Alpes e da Mancha, afetando por séculos a ciência e a investigação nesses mesmos países que, apartados das inovações técnicas dos colegas protestantes, mergulharam em longos séculos de penumbra apagada.

Parecendo que não, e tendo um impacto bastante menor sobre as consciências, a queima de livros é de tanta ou maior gravidade intelectual, quando comparada com a execução de hereges. Com os livros, queimam-se as ideias, as pedras basilares do progresso, os séculos de conhecimento apreendido. Com os livros, queimam-se culturas, identidades, queimam-se povos. Por alguma razão, os livros de intelectuais opostos ao poder dominante costumam ser sempre as primeiras vítimas dos ditadores, desejosos de calar eternamente toda e qualquer oposição. Mais do que as infraestruturas, que os bens materiais ou mesmo do que uma geração, é nos livros que está o futuro, o passado, a vida e a morte, o nascer e o ocaso, o destino e os sonhos de todos nós. Queimem-nos, como o Índex fez primorosamente, e queimam as esperanças de qualquer povo em levantar-se e olhar o Alto com coragem, curiosidade e esperança. Acima disso, perde-se muito da iniciativa própria, da capacidade de ser diferente e inovar, de empreender pelo nosso próprio pé, longe dos braços de qualquer Estado, Mecenas, Protetor ou Monopólio. Perdem-se as dúvidas, as questões, a insegurança, mas trocamo-la pela pequenez, pelos dogmas e pelo apertado controlo duma mão que tudo controla.

Não, não procuro desculpar a Igreja Católica, os seus líderes ou as suas estruturas pelos séculos de perseguições empreendidas contra todos quantos ousavam questionar ou duvidar das suas posições. Não desejo minimizar qualquer implicação da Igreja na decadência e ocaso que a Península Ibérica, eldorado europeu ao longo dos séculos XVI e XVII, acabou por sofrer após se estancarem as torrentes de especiarias orientais, ouro brasileiro e prata argentina. Não procuro transformar Torquemada num cordeirinho ou Martinho Lutero num infanticida descompensado. Apenas procuro a verdade. E essa verdade, tantas vezes escondida, não a é pela mão dos cardeais, da Igreja ou do Papa. Há que olhar mais fundo, que procurar quem realmente lucra em transformar mil num milhão, em iluminar a Europa no cheiro de carne assada, páginas crepitantes e extremismo inventado. O Vaticano falhou? Muitas, inúmeras, incontáveis vezes. Se assim não fosse, escusávamos de falar da vinda do Messias: já tínhamos um, no trono de São Pedro. Como Humanos, falíveis e simples, certamente só a imperfeição seria algo normal de esperar.

Agora, verdade seja dita, quantos padres morreram nas mãos dos comunistas chineses? E nas de Estaline? Pop Pot? E nas dos outros, diversos tiranetes que se auto proclamaram defensores do povo? Mil? Dez mil? Milhões? Quantas igrejas, sinagogas, mesquitas e templos, quantos santuários e locais de oração foram destruídos por todos estes heróis? Quantos séculos tiraram às respetivas populações, em qualidade de vida e desenvolvimento? Quantas fogueiras seriam necessárias para se ver, na escuridão tenebrosa do Comunismo, este massacre velado?

E, cantando e rindo, continuamos a acreditar. Que não foi por sermos totalmente dependentes do exterior, que não foi investir o tudo quanto ganhávamos em palácios, toiletes e Igrejas, que não foi a nossa posição desprivilegiada, num extremo da Europa, que não foi a nossa ganância e a nossa inveja crónica, que não foram essas as razões da nossa desgraça. Convicção em fenómenos externos, causados por forcas imaginárias, mas poderosas e omnipresentes, nunca nos faltou. Teórico da conspiração, cada um de nós, no seu grau e forma, é um pouco. Levemos essa teoria a novos patamares. Acusemos a Igreja, Deus e o Espírito Santo - particularmente este último, obviamente - de congeminarem contra a Península. Processem-nos a todos, enquanto a Justiça está promissora para esses lados. Agora que já se conseguem processar companhias de batatas fritas por imagem de Jesus Cristo numa batata e, curiosamente, vencer-se o processo, que tal cair em cima desta tríade maligna e pedir uma compensação por danos morais? É o mínimo que se pode pedir... E não me venham dizer que o caso prescreveu...

Miguel PadrãoMiguel-Padrao


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