A este nada já muitas vezes nos dedicámos nesta coluna. Não terão igualmente direito a menção os particularmente bons, amados ou benditos. Foram-no, parabéns e um lugar num Paraíso à escolha, agora desandem que temos algo mais importante a tratar.
E não, também não são os maus da fita, os eternamente desprezados, os Hitleres antissemitas, os Estalines paranóicos ou os Maos pseudorreformadores. Não, esses já foram suficientemente malditos e odiados. É um lugar comum que, se alinhássemos todas as pragas rogadas a todas estas simpáticas e incompreendidas personalidades, poderíamos fazer um cordel de solidariedade cósmico que nos unisse ao desgraçado Plutão, outra vitima da recente tendência da humanidade de segregar e despromover todos os que a História vence, todos os que tentam invadir as órbitas do vizinho e todos os que não têm força suficiente para atrair para si tudo à sua volta, limpando a sua órbita de qualquer elemento incómodo.

Nos entretantos, enquanto Plutão e as supracitadas criaturas, talvez coadjuvadas por um qualquer Idi Amin, Saddam Hussein, Kim il Sung ou Nero, jogam à canastra nas profundezas do submundo, com as suas costumeiras intenções de conquista, massacre e genocídio forçadamente reduzidas, foquemo-nos noutro local. Algures num palacete de Buenos Aires (substitua por uma capital a gosto) a associação das Mães da Praça de Maio (substitua por uma qualquer associação de defesa de ex-vítimas de uma qualquer ditadura militar, sobreviventes de tortura ou simplesmente por um sindicato com peso politico) entrega a um desconhecido/conhecido de todos o prémio Ernesto Che Guevara. Noutra capital Ocidental, uma multidão de manifestantes, orgulhosamente portadora de camisas timbradas com o semblante deste atraente Revolucionário, usa do seus meses sem banho para aterrorizar executivos lavados e engraxados, exigindo a abolição do capitalismo selvagem, da prisão de Guantánamo, da pena de morte e da obrigatoriedade de um banho antes da entrevista de trabalho. Ainda noutra capital, uma qualquer banda de músicos desempregados compõe uma nova letra, a louvar os feitos, o altruísmo, a bondade, o heroísmo, enfim, a figura quase divina deste médico motociclista, feito revolucionário e mártir. São estes casos, os mitos de psicopatas, maníacos sedentos de sangue, genocidas e estadistas improvisados que, apesar de todo o sofrimento, de todas as arbitrariedades, mortes, estupros, perseguições, erros, manias e defeitos, são louvados e adorados pelas massas, que importa desmistificar e desfazer, impiedosamente e de uma vez por todas. Ou corremos o sério risco de, daqui a umas gerações, ser interpelados por curdos Saddamistas, congoleses com barbas à rei Leopoldo - e uma bela barba era aquela, convenhamos -, Ugandeses de Kilt ou chineses de Livro Vermelho. Bem, os chineses já estão arrumados, mas espero que entendam a ideia.

Comecemos, então, a dar razão aos nossos amigos manifestantes. De facto, Che era um bon vivant, amando intensamente a vida, em todos os seus momentos mais insignificantes. Como, certamente, o momento em que executou com um tiro na nuca um rapaz de doze anos, acusado de tentar proteger o pai de ser executado por traição. Um dois em um, por assim dizer. Ou, por exemplo, a facilidade com que o nosso herói revolucionário e os seus camaradas Castro restabeleceram a pena de morte em Cuba, que a já não empregava desde a Segunda Guerra Mundial. Rapidamente, por decerto, me dirão os já atónitos charutos...ups, manifestantes, que o governo de Fulgêncio Batista prendia e fazia desaparecer os seus adversários políticos. Governo esse que, por sinal, tinha uma profunda inspiração comunista. Anuo, tristemente, porque, de facto, em minha defesa apenas posso constatar factos menores: Guevara apenas desapareceu com guerrilheiros companheiros e tropas governamentais enquanto militar, com dissidentes, família, amigos, cão e periquito incluídos, enquanto comandava a prisão de Las Cabañas, e com a inteira economia cubana enquanto presidente do Banco Central Cubano e Ministro da Indústria. De qualquer maneira, como quereriam que um ministro que precisou de aulas de matemática e economia após assumir o cargo pudesse enfrentar o poder do imperialismo norte-americano

Pobres, esforçados e reivindicativos sindicalistas, o vosso Armagedon chega agora. Continuem a distinguir Che como um evidente lutador contra a opressão do capital, um distinto apoiante da luta de classes e experiente defensor do proletariado, porque foi exatamente isso que ele foi, do momento em que abriu pela primeira vez até ao desgraçado instante em que a traição o colheu, na flor da idade, enquanto espalhava a Revolução pelas margens do lago Titicaca. Do momento em que enrolava o seu charuto Cohiba às suas diretivas a favor do trabalho extra, da necessidade de intervenção do Estado como incentivador da produtividade individual e severo punidor de qualquer alma menos alinhada com os seus megalómanos objetivos económicos. Dos dia em que até da família Bacardi o seu movimento guerrilheiro recebia financiamento, até aos anos em que as suas ações irresponsáveis, imaturas e irrefletidas levaram Cuba a ser a única nação da América que viu o seu consumo de alimentos, produtos manufaturados e tudo o mais (até a produção de açúcar ou a industria tabaqueira) a despencarem como, digamos, um míssil intercontinental a aproximar-se do alvo.

De seguida, revoltam-se os indignados pacifistas, cuja frustração é tal que deixam transparecer que me perseguiriam até ao fim do mundo, me esventrariam e enforcariam todos os meus apoiantes, discípulos e familiares com as minhas entranhas, só por maldizer o divino Che. Infelizmente, contudo, não poderão ainda encher chouriços (literal e figuradamente), pois trago boas novas: não foi só o nosso barbudo predileto um brilhante exemplo de como o diálogo pode resolver todas as nossas desavenças (particularmente num calabouço, com um canivete, e seguido de um breve repouso encostado a uma parede esburacada) como também, a ter causado alguma morte, foram apenas e só as estritamente necessárias para o triunfo da revolução (excetuando, está claro, os milhões que a sua sábia decisão de servir de base avançada da URSS PODERIA ter eliminado; esses, certamente, seriam "danos colaterais").

Nunca, jamais e em tempo algum pode algum Homem, de sã e plena consciência, opor-se à sábia luta destes heróis, para espalhar a revolução, a Causa Justa que os polvos capitalistas e imperialistas procuram sonegar e afastar do conhecimento dos proletários. Todas os demais danos, mortes e erros são, como supra, acidentais, desculpáveis e colaterais. Seguindo esta lógica iluminada e totalmente justificada, se, por acaso, um porco capitalista reagir a tais massacres e também começar, feito doido, a atirar contra pessoas inocentes, a fuzilar crianças, a torturar oponentes reais e imaginários, a reduzir um país aos escombros fumegantes do que já fora e a procurar, intencionalmente, começar uma guerra mundial entre duas potências nucleares, que reduza a Humanidade a cinzas, terá de ser julgado em Haia, Genebra, Moscovo e Havana, somadas as penas e multiplicadas pela idade do prisoneiro, só para o maldito ter a certeza que da choldra não sairá só por alegar idade avançada ou problemas de saúde. Todos sabemos que velhos é que eles são perigosos, envenenam poços e escondem John Adams debaixo da cama.

Finalmente, há-que ajudar os já bastante acossados institutos, organizações e associações que, perseguidos pela recente onda de austeridade que procura extinguir todos estes oprimidos beneméritos, que apenas desejam acesso às nossas contribuições para premiar uma qualquer figura que, segundo eles, se distinguiu como lutador pela liberdade, pelos direitos humanos ou simplesmente ficou a dormir em casa e não ajudou uma ditadura de direita ( sim, não vale opormo-nos a ditaduras de esquerda. Simplesmente, não é correto!). Apesar de inicialmente pensar que estes pobres coitados poderiam estar a passar simplesmente por uma crise de bipolaridade - ter familiares espancados, torturados ou mortos causa destas coisas - compreendo agora qual a lógica destes meus camaradas, ao atribuírem com toda a vontade e júbilo, os prémios Che Guevara aos já acima referidos partisans da liberdade, justos entre os justos. Afinal, como nunca nenhum regime comunista terminou a matar os seus concidadãos (excetuando os soviéticos, maoístas, khmer vermelho, Coreia do Norte e demais conhecidos, mas sempre por fins mui nobres, observo), esta bateria de provas que eu apresento é, obviamente, uma mentira ocidental, planeada com a CIA, FBI, MI6 e demais máfias, apenas para rebaixar este épico lutador pelos direitos humanos. Mais, como é que um Homem destes, cujo H maiúsculo já foi atrás tão bem comprovado, poderia atentar desta forma contra os seus concidadãos? Como poderia este humilde, desinteressado e altruísta lutador, que detestava o capital, os luxos e a ostentação, este Robin Hood dos tempos modernos, apontar as suas armas contra o povo, em vez de estourar os miolos de um banqueiro, antes da sua sessão d' " O Capital"? Realmente, não é minimamente possível. Estivesse eu no seu paraíso de liberdade e já me encontrava, na melhor das hipóteses, com guia de marcha para uma plantação de bananas. Na pior, seria simplesmente fuzilado até ao terceiro descendente. Esta apologia do cocho já vai longa e, como contra provas não há argumentos, deixo-vos, para cerrar, o testemunho emocionado deste herói épico, digno de uma Ilíada moderna: "Nós temos que dizer aqui o que é uma verdade conhecida, que temos expressado sempre diante do mundo: fuzilamentos, sim! Fuzilamos, estamos fuzilando e seguiremos fuzilando até que seja necessário. Nossa luta é uma luta até a morte." - Che Guevara, a discursar no plenário das Nações Unidas, 1964

Francamente, convenceram-me. Afinal, este pobre desgraçado, este anjinho caído do céu, este eletrãozinho desemparelhado, apenas queria um mundo melhor. Eu é que, do meu bastião de ostentação, instalado numa ricamente ornamentada secretária, pagando a minha água negra do imperialismo com o meu sujo dinheiro, extorquido aos humildes trabalhadores, vestindo as roupas da mais prestigiada marca Francesa, com a minha carteira de couro Italiano, o meu telemóvel americano, o meu automóvel alemão, procuro destruir as conquistas morais, sociais, económicas e políticas da revolução. Isso, e prejudicar a indústria bananeira cubana.
Resumindo e concluindo, eu, perigoso contra-revolucionário, me confesso. Peço-vos humildemente que tenham misericórdia e me deixem tomar parte deste vosso admirável mundo novo. Embora, convenhamos, tenha para mim que, ou alguém vos andou a contar o conto do vigário no que ao vosso ídolo concerne, ou, a acreditarem realmente nos seus ideais, dificilmente verei o amanhã...

Miguel PadrãoMiguel-Padrao


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