Economicamente, esperam-se as novas medidas do Banco Central Europeu para salvar a Europa da deflação e da recessão, continuam-se a desenrolar as longuíssimas e extremamente emaranhadas tramas do ex-Banco Espírito Santo.

Tecnologicamente, tanto a Apple como a Samsung, a Sony e outras companhias apresentaram uma série de relógios e telemóveis, os seus "flagships" para a época natalícia que se aproxima, além de a primeira disponibilizar o seu sistema operativo móvel, o iOS 8, para o grande público.

Politicamente, observamos impotentemente a reentré, apresentam-nos uma nova e reformulada Comissão Europeia, preparam-se as eleições internas no Partido Socialista e a Escócia vai a votos para decidir a sua independência, numa iniciativa que tem colocado os nervos dos políticos de Westminster em franja, bem como atiçado os ânimos do nacionalismo Catalão e Flamengo.

Militarmente (esfera que, estando tão próxima da política, me custou bastante a cindir) continuam os confrontos mais ou menos dissimulados no leste da Ucrânia, bem como embarca o Ocidente para mais um confronto com o Estado Islâmico, expoente máximo da barbárie a nível mundial que temos de caçar impiedosamente, até ao último bastião.

Todas estas temáticas, discussões e questiúnculas têm ocupado grande parte da opinião pública, num onanismo intelectual que não peca só por ser egoísta, mas principalmente por ser de uma inutilidade gritante. Além do mais, afasta-nos do que devia ser o debate dominante nesta quinzena: o estado da educação em Portugal e a gritante necessidade de mudanças, reformas e alterações que este setor necessita.

Não nos enganemos: nos últimos três anos, a renovada chefia da tutela tem tido uma homérica, hercúlea coragem ao enfrentar sindicatos, faculdades e poderes instituídos. Reinstituíu uma cultura de esforço e empenho que já muito se vinha tentando degolar, em nome do "eduquês" que, aliás, o atual ministro tratou num dos seus livros. Do viciante sono de morfina, do facilitismo de anos de Socratismo, o ensino foi rápida e - talvez demasiado - bruscamente acordado para uma postura mais condizente com as exigentes dinâmicas, necessidades e parâmetros pelos quais se guia a nossa "Aldeia Global". Cortou-se no financiamento ao Parque Escolar, verdadeiro poço sem fundo dos dinheiros públicos, plano genialmente concebido que desejava transformar cada escola num mini-Versalhes, dourado com "materiais nobres" e recheado com os inúmeros tesouros que inspirariam os nossos petizes numa brilhante carreira de ourives, pintor ou escultor. Bem sei que o Estado somos todos nós, mas transformar cada aluno num Luís XIV parece-me um nadinha exagerado...

Enfrentaram-se as exigências dos Sindicatos, da FNE e da FENPROF, verdadeiros grupos de pressão cujo único interesse é manter as suas próprias regalias e benesses, não defender os verdadeiros, esforçados e honrados professores que dizem hipocritamente representar. Aliás, digo mais, como podemos ter sindicatos imparciais e sérios quando estes estão tão pouco ligados à política, aos interesses dos partidos, que têm as suas chefias indicadas por esses mesmos antros de interesses, os partidos de esquerda a que estão umbilicalmente ligados?

Cortou-se bastante? Claro. Demasiado? Em alguns casos, não o negaria. Não obstante, acho bastante ilustrativa a situação das Universidades, que tanto ladraram, mas acabaram por conseguir ultrapassar as dificuldades. Conclui-se, portanto, que os reitores são, provavelmente, os melhores gestores do nosso país. É certo que a investigação, o dinheiro para as faculdades e para a inovação deve ser uma das principais preocupações de um país dito desenvolvido. Só inovando é que conseguimos competir, só inovando é que nos poderemos reafirmar no plano internacional. Contudo, julgo também ser evidente que, em Portugal, Orçamentos avultados são sinónimo de tachos, favorecimentos, enriquecimento ilícito, corrupção, despesismo e um contínuo sem fim de problemas que, conjugados, originam o insustentável nível de despesas que o Estado ainda possui e que, multiplicado ministério por ministério, instituto por instituto, departamento por departamento, secretaria por secretaria, deputado por deputado, nos afunda numa espiral de dívida cada vez mais impagável.

Falta ainda fazer muito? Obviamente. Por exemplo, as mais recentes alterações aos programas de diversos anos letivos, aliados à transformação dos exames do décimo segundo ano em provas que englobam três anos de ensino, só podem ser interpretadas como cedências ao enorme poder das editoras, cujas vendas de manuais estupidamente inflacionados começavam a ser minadas pelos crescentes esquemas de troca de livros. Esta cedência é, além de vergonhosa, inaceitável, e já deveria ter feito rolar cabeças no MEC. Toda a negociata em redor dos manuais escolares e livros de leitura deveria, corajosamente, ser forçadamente substituída por uma versão moderna, devidamente creditada por quem de direito, de um livro único. Não só como maneira de se terminar com a gritante gatunice em que se transformou a escolha e compra de livros escolares, que começam a aspirar a um estatuto de item de luxo, mas também facilitaria uma maior uniformização do ensino a nível nacional, obrigando a um cumprimento mais exigente dos programas das diferentes disciplinas.

A avaliação dos professores é outro ponto que ainda tem de ser tratado pelo executivo, ou não fosse fundamental exigir-se, a TODOS os docentes, uma prova de conhecimentos. Prova essa que, aliás, deveria ser progressivamente estendida a toda a função pública e que, francamente me espantou, com a violenta contestação que provocou. É costumeiro afirmar que "Quem não deve, não teme", o que julgo assentar nesta quezília como uma luva. Como acham, afinal, que os médicos mantiveram o seu estatuto e os seus privilégios? Abandalhando-se e facilitando a entrada de novos colegas, como faziam engenheiros e advogados? Ou procurando elevar a fasquia, dificultar a entrada, deixando a Seleção Natural tratar do resto? Qualquer bom professor, profissional brioso do seu papel na formação dos futuros profissionais do país e consciente da sua importância na sociedade, não quererá, por decerto, ver-se olhado de esguelha pela sociedade, apenas pela falta de profissionalismo que os seus colegas, admitidos sem qualquer controlo e limite impregnam na sua profissão. Com esta oposição apaixonada, os verdadeiros professores, os professores a que o País deve respeito, acabaram por morder a mão que os alimentava, num cego tiro nos pés que ainda lhes poderá sair caro.

Há muito por fazer, mas também já muito foi feito. Afinal, conseguimos adaptar o ensino a um nível mais elevado, cortar num significativo número de gorduras que imobilizavam o ministério numa burocracia inerte e amorfa, retirámos tempo burocrático aos docentes, para o distribuirmos pelas atividades letivas a que verdadeiramente pertence, conseguimos reformar a cega, insustentável e despesista distribuição de escolas e agrupamentos e, acima de tudo, melhorámos o nosso desempenho nos índices escolares. Não suficientemente, dirão, ao que tenho de pedir que deem tempo ao tempo, aguardem que as sementes das medidas atuais cresçam e frutifiquem. Lembrem-se, acima de tudo, do destino dos países Escandinavos, da Coreia do Sul, da Inglaterra Vitoriana e de todas as nações que investiram incondicionalmente no ensino. Os frutos da nossa perseverança virão, mais cedo ou mais tarde. E, aí, agradecerão a quem teve pulso forte e soube dizer não.

Miguel PadrãoMiguel-Padrao


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